quinta-feira, 5 de abril de 2012

ECLIPSE

Recordo-me muito bem.Foi na encosta norte do miradouro da Bandeira.Em plena Serra da Boa Viagem.Eu,como fazia tantas vezes,acompanhava-o.Nos meus nove ou dez anos,tinha como tarefa carregar o bornal da bucha e a inseparável cabaça do tinto.E,eu gostava!Dava-me um gozo imenso caminhar por entre aquele verdejante e cerrado matagal.Não havia silva,tojo ou silva-cão que me mete-se medo...
Meu pai,como caçador exímio que era,encostado a um enorme e robusto tronco de pinheiro,de espingarda em riste,à "coca" de qualquer coelho levantado da cama pelo estrondoso latido dos cães,nem pestanejava.Quando,de repente,e sem que nada o fizesse prever,o azul-celeste daquele início de manhã outonal se tornou negro como breu.O dia,transformou-se em noite.Não se via um palmo à frente do nariz...(chuva nem vê-la!).Logo ali,entre mim e o meu pai fez-se um enorme silêncio.__Mas,que raio se estaria a passar?...(perguntei para com os meus botões.__Foi então que,como que num golpe de magia,lembrei algo que a Sra. Professora tinha falado pouco tempo antes na escola durante uma lição de ciências.__«Quando o Sol desaparece,em pleno dia,e surge a noite,a isto chama-se ECLIPSE...»__Naquele momento,e com uma voz de quem teria descoberto a ciência dos astros,gritei para meu pai:__Pai,isto é um ECLIPSE!!!...__Ele, na sua postura de homem firme e sabedor das "coisas" da NATUREZA,respondeu.__«Eu sei,filho.Isto não demora...já passa!...»__E, dito isto,a luz do dia voltou.E que luz!...E que dia!..."Fizemos" uma caçada das grandes;o meu pai,com um bom par de coelhos pendurados à cintura e eu,já com o bornal e a cabaça mais leve,regressamos a casa em plena euforia.Meu pai,pela caçada feita e eu,por que nunca tinha a assistido a FENÓMENO DA NATUREZA.

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